Novo fresco e lúcido.

 Agorafóbico de Minha Própria Insignificância (III)

Tenho medo dos espaços vastos,

não das ruas ou do céu aberto,

mas do instante em que percebo

que o mundo segue… sem me pedir por perto.

Há um vazio que respira em mim

quando tudo parece caber em qualquer um,

e eu — disperso, quase ausente —

mal preencho o contorno de um comum.

Recolho-me.

Não por abrigo, mas por ausência de convite.

Faço da mente um quarto estreito

onde a existência ao menos insiste.

E ainda assim…

entre o quase nada e o quase ser,

descubro, sem alarde, pequenas frestas:

um gesto que não cobra,

um olhar que não pesa,

um dar-se sem precisar reter.

É pouco — diria o mundo apressado —

mas há algo ali que não se mede:

uma beleza austera, quase invisível,

que não grita, mas precede.

Como se no mínimo coubesse o inteiro,

como se no simples houvesse raiz,

e no ato de ceder sem cálculo

um motivo silencioso de existir.

Talvez eu ainda tema o vasto…

mas já não temo tanto o vazio.

Porque em migalhas de sentido deixadas ao outro

descubro — sem dizer —

que, de algum modo, eu também fui.

E então — quase imperceptível — algo estala.

Não alto, não claro, mas íntimo:

um tilintar, uma vibração

que muda de forma a cada vez que sinto.

Como se o mundo não fosse fixo,

mas tradução em curso dentro de mim.

E compreendo — ou talvez apenas aceite —

que sou e serei eu mesmo

em alguma nova e melhor versão,

não por ter respostas,

mas por abrir minha própria mente

ao gesto de contemplar.

Porque até o menor som —

um estalido, um eco, um sopro —

carrega um sentido distinto

em cada forma de perceber.

E é nesse movimento,

nesse quase entender sem possuir,

que deixo de fugir do infinito…

e começo, enfim,

a caber em existir

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